1. Lei do Retorno
Tradições de Bruxaria Tradicional (BT) em geral não reconhecem a recentíssima Lei Tríplice (essa é uma lei nova, não há nenhum registro da existência dela nas crenças antigas) da Bruxaria Moderna e nem em 'karmas' (uma vez que esse conceito não pertence as tradições europeias e/ou egípcias), algumas tradições de BT interpretam o "Retorno" como consequência dos seus sentimentos e não dos seus atos, então – para estas – se não há culpa não há retorno, se há satisfação é a satisfação que reinará no interior do bruxo e também retornará a ele seja o ato favorável ou não. Existem tradições de BT nas quais o retorno só ocorre se houver arrependimento do feitiço lançado, não havendo o retorno não existe! E existem tradições na quais o retorno - dentro das perspectivas apresentadas – realmente não existe e não há preocupação com isto, em algumas delas o que pode se voltar contra o bruxo é o poder com o qual o mesmo trabalha se houver insegurança de sua parte. E etc., mas nunca a existência de uma Lei que realiza um retorno triplo foi tradicional! Ainda assim não há nada que possamos chamar de “Lei” referente ao retorno.
Na Bruxaria Moderna (Wicca) acredita-se na Lei Tríplice como Lei do Retorno e que de certa forma ambas estão relacionadas com o pagamento de karmas nessa mesma vida.
Conclusão: a lei tríplice não existe na Bruxaria Tradicional, pois trata-se de uma crença moderna e por tanto surgida na modernidade.
2. Roda do Ano (Ciclo Sazonal)
Há um grande rebuliço nos meios da “bruxaria” neopagã (wicca) sobre o giro de sua Roda que, na perspectiva wiccana, está relacionada aos seus oito sabates. Meu objetivo não é trazer uma problemática que não me compete aqui, uma vez que não sou neopagão ou pagão, meu objetivo é trazer um pouco do ponto de vista tradicionalista referente à festivais, rituais e calendários e consequentemente sobre o que chamam de ‘roda’.
A Roda é antes de tudo um símbolo presente em algumas culturas politeístas a exemplo da céltico-galesa e itálico-romana, mas sua simbologia só está atrelada à temporalidades e existências na cultura germânica onde pode ser entendia como octostar ou estrela de oito extremidades, nessa perspectiva não há uma roda. Mas dentro de uma perspectiva extremamente sincrética a octostar seria a roda do deus céltico-gaulês Taranis (atrelada ao inverno estando relacionada com o sazonal) ou a roda dos deuses celestes itálico-romanos tais como Jupiter, Luna e Sol Invictus. Originalmente a perspectiva sincrética não é genuína, e nas tradições arcaicas o que marca a passagem do tempo são as luas tanto na perspectiva céltica (especialmente a irlandesa) quanto na perspectiva germânica (especialmente a islandesa), por tanto nunca chamamos a passagem do tempo de “giro da roda”, e é importante desmistificar que na Magia Folclórica Tradicional (Pré-Medieval) nunca se realizaram sabates ou esbates! Essa perspectiva nasce com a Bruxaria Tradicional Medieval que foi – como sempre digo – a maior fonte de inspiração de Gardner na criação da “bruxaria” moderna. A Feitiçaria Pré-Medieval possui diversos festivais e rituais – alguns desconhecidos e pouco mencionados em escritos ou livros e, muito menos, na internet – e sua organização cronológica está totalmente dissociada do calendário cívico em atual uso! Ou seja, o Imbolg (conhecido como Imbolc ou Oimelc) jamais ocorreu no dia 02 de fevereiro. O Beltain (conhecido como Beltane) jamais ocorreu em 01 de maio e o Samhain nunca ocorreu em 31 de outubro, uma vez que os celtas (especialmente os irlandeses) não se orientavam por um calendário que nem existia para eles. O sincretismo – e se você costuma ler minhas postagens, sabe disso – é totalmente avesso ao tradicionalismo, então creio que esteja óbvio que os magos celtas da Irlanda nunca tiveram oito festivais e sim quatro! Os sabates modernos como o Ostara e o Litha estão atrelados à vestígios vagos das culturas germânicas também de forma sincrética. Existe uma grande dificuldade popular no entendimento que sapara religião politeísta de ofício feiticeiro! Ser um feiticeiro ou mago na antiguidade era um ofício, um estilo de vida, uma profissão, uma vida inteira era devotada a tais estudos, mas um feiticeiro não era um sacerdote – embora, em algumas tradições os sacerdotes praticassem, a seu modo, alguma forma de magia -, não vivia em templos, levava uma vida basicamente normal, não tinha obrigação de ser virtuoso ou maléfico, ajudava quem merecia ou em troca de pagamento, não devotava sua vida a servir aos deuses, mas em se relacionar com eles (assim como é até hoje entre nós, tradicionalistas). Em algumas culturas os sacerdotes e feiticeiros não se davam nada bem! Então que esteja claro: os ofícios feiticeiros possuem seus próprios “calendários”, ou seja, muitas vezes os calendários religiosos (sacerdotais) não eram uma referência e muito menos fielmente seguidos. Há muito a ser aprendido sobre os mistérios feiticeiros da antiguidade, há uma imensidão que nunca será revelada na facilidade da internet ou na mercadologia dos livros.
Na Magia Folclórica Tradicional Pré-Medieval há festivais atrelados e não atrelados ao ciclo sazonal e somos objetivos nesse aspecto, ou seja, os festivais dessa natureza ocorrem em sua respectiva estação local. Há festivais que seguem épocas dos calendários arcaicos e assim são orientados. E etc. Nunca houve entre nós a necessidade de criar um calendário do norte e outro do sul, ou misto, sei lá.
3. Fase de Dedicação
Existe FASE DE DEDICAÇÃO na Bruxaria Tradicional?
A priori é relevante entendermos que a Bruxaria Tradicional é muito HETEROGÊNEA, ou seja, muitas Tradições Regionais compõem o leque das cores tradicionalistas. Farei a explanação sobre o tema em questão com base nas Tradições Folclóricas Pré-Medievais que conheço.
Não existe uma obrigatoriedade da existência de cerimônias, graus ou iniciações nas tradições, algumas originalmente consideram desnecessário um ritual iniciático e muito menos um período pré-iniciático! A maioria das tradições folclóricas entendem o Mito da Iniciação dentro da perspectiva processual natural e as vezes entendidas como graus ou apenas por períodos, algumas tradições não compreendem o Mito tal como graus ou períodos, principalmente as tradições familiares (ou na perspectiva familiar) quando se entende que nasce-se como tal incluindo ritos de integração ou agregação para membros externos a família (maridos e esposas dos herdeiros/as) que passam a fazer parte da mesma e de seu ofício. Na perspectiva mais tradicional regional as cerimônias que comportam os rituais voltados para o Mito são – em algumas tradições – necessários para se afinar com aspectos mágico-espirituais internos e externos e para que o indivíduo possa estar preparado para vivenciar intensamente esse Mito existe um período de aprendizado. Em algumas tradições esse período tem uma determinada durabilidade que pode ou não ser cumprida – isso depende muito do iniciante -, em outras tradições o período simplesmente não tem uma durabilidade dependendo totalmente do iniciante trabalhar para estar apto para tal vivência mágico-espiritual. Ninguém se inicia nas tradições folclóricas oficiantes para servir aos Deuses, ou seja, não há um sacerdócio, mas sim um ofício feiticeiro onde o indivíduo trabalha primeiramente por si, os mestres – em gratidão aos mestres anteriores e a sabedoria ancestral – o ajudam se o reconhecerem como DIGNO (o que será feito pelo mesmo mais tarde quando tornar-se mestre), e os Deuses o favorecem se seu trabalho e dedicação são honrosos. Uma pessoa é iniciada por mérito próprio, pelo seu próprio trabalho, construção de relações com os Deuses, dedicação ao Clã, respeito aos mestres, tudo isso é um investimento em si mesmo, pois tudo que o indivíduo vivenciar e desenvolver magico-espiritualmente pertencerá a ele e não aos Deuses ou aos seus mestres! Nenhum período pré-iniciático tradicional folclórico tem a duração de “um ano e um dia” uma vez que o calendário em uso atual não era utilizado em tais tradições arcaicas. Nos períodos de aprendizado o foco é aprender e não ser testado, se algo ocorre de turbulento na vida do iniciante é muito mais uma adaptação a toda rotina do Ofício Feiticeiro (que é bem movimentada em alguns Clãs) ou se o mesmo mora com uma família cristã que discorda da sua escolha de se agregar a um Clã de Feitiçaria, mas estas coisas não são “provações” dos Deuses, mas sim adaptações perante o “novo” caminho escolhido. Os períodos variarão de tradição para tradição assim como também variarão de pessoa para pessoa...

4. O Pentagrama
O Pentagrama é o símbolo oficial da Bruxaria?
Na verdade, a origem histórica do pentagrama está no Pitagorismo, lembra de Pitágoras, o Pai da Matemática? Lembra também que o você viu símbolos matemáticos nas aulas de geometria como: triângulo equilátero, retângulo, quadrado, cone, hexagrama, e - se deu sorte viu também - o pentagrama. Não existia somente a Escola de Pitágoras, existiu também a Irmandade Pitagórica que alguns classificam como filosofia neo helênica, os membros dessa fraternidade não eram exatamente pagãos, mas sim teóricos que acreditavam que as escalas musicais e a numerologia detalhada carregavam vibrações. Os pitagóricos davam ao pentagrama o significado de virtude, suas cinco pontas referiam-se aos quatro elementos naturais e ao espírito (topo) e os membros o utilizavam para reconhecerem-se, ou seja, como símbolo oficial de sua filosofia.
Mais tarde o movimento esotérico (anterior ao surgimento da Bruxaria Moderna/Wicca) adota o pentagrama enquanto um dos símbolos oficiais do movimento em razão de seu significado pitagórico que se harmonizava com a universalização esotérica. Posteriormente o Wicca (Bruxaria Moderna) surge no meio esotérico e consequentemente aglomera diversos aspectos universalistas e simbólicos do meio de origem adotando o pentagrama enquanto símbolo oficial de sua filosofia e deidades, algumas tradições wiccanas inclusive (por volta de 1970) passaram a associá-lo enfaticamente ao feminino, e passou-se a buscar fundamentos para caracterizá-lo como símbolo arcaico presente em todas as culturas pagãs.
Na Bruxaria Tradicional o pentagrama não representa nenhuma das Tradições regionais (e nem está presente nelas) e muito menos é o seu símbolo oficial, na verdade os costumes, mistérios e filosofias tradicionalistas estão muito afastados da ideologia pitagórica e/ou esotérica, e para a mesma não existe o espírito enquanto elemento, o espírito é metafísico assim como os Deuses, seres etéreos, e etc. Cada Tradição Regional vai possuir seus símbolos atrelados a sua etnia e identidade ancestral, nem mesmo na Bruxaria Tradicional Helênica (a exemplo da Tradição Ateniense) o pentagrama é reconhecido enquanto símbolo de Magia, Feitiçaria ou devoção. Acredito que esteja clara a heterogeneidade da Bruxaria Tradicional que não permite que exista um símbolo oficial que represente todas as tradições regionais, contudo, há alguns aspectos em comum entre essas tradições: os mistérios, o silêncio, a honra ou trabalho com ancestrais, a compreensão dos deuses pela via da singularidade, entre outras.
5. Ofícios
A Bruxaria Tradicional é sacerdotal? Tem iniciação?
Na Bruxaria Tradicional (BT) existem ofícios que podem até ser entendidos como "sacerdotais", mas a palavra mais coerente para isso - tradicionalmente - é ofício (craft) mesmo (vários clãs de BT a consideram um Ofício e não uma religião)! Não existe uma obrigatoriedade quanto ao caminho oficial (iniciático) para ter-se acesso a pratica e vivencia feiticeiras básicas, e – para algumas tradições – para ser um bruxo/a não precisa ser iniciado, mas conhecer com propriedade a tradição, seus costumes e práticas ancestrais. Porém, o conhecimento tradicional é tão estimado quanto nas tradições que mencionei antes, mas o mito misterioso da “iniciação” é vivido em uma ritualística que marca – como um rito de passagem – a entrada do indivíduo no ofício/clã. Muitas tradições entendem o ofício como uma missão ancestral e por isso incluem os agregados numa perspectiva de participantes ou membros (perspectiva que varia de acordo com a Tradição) que aprendem e praticam os mistérios iniciais e permanecem no clã sem precisar tornarem-se oficiantes. Há tradições que colocam os oficiantes em uma hierarquia similar a organização sacerdotal religiosa, ou seja, existindo praticantes, aprendizes e oficiantes. Na compreensão tradicional a iniciação nunca será algo recebido como presente espiritual que torna o indivíduo forte e poderoso através de um ritual mutante (risos)! A iniciação é um processo que parte do aprendizado sobre a Tradição e seus ricos costumes e detalhes e se amplia aos diversos aprendizados do dia-a-dia que – claro – partem das instruções técnicas, teóricas, práticas e espirituais dadas pelo Magister (líder do clã). Ou seja, não adianta montar todo um ritual e manifestar diversas abstrações mágico-espirituais se o iniciando não aprendeu o necessário sobre a Tradição, ocorrendo isso não passa de uma ilusão que muitas vezes pode fazer parte da fantasia criada para pregar sobre a posse de falsos poderes e forças mágicas, seduzindo ambiciosos de plantão. As posições hierárquicas entre os ofícios feiticeiros vão variar de tradição regional para tradição regional, mas geralmente se divide como bruxo/a e magister.
Na Bruxaria Moderna (Wicca) existe uma obrigatoriedade quanto ao caminho sacerdotal, pois ser um bruxo ou bruxa é também (na concepção moderna) ser sacerdote ou sacerdotisa. Se sua opção for por não se integrar ao oficio sacerdotal então você não pode se iniciar, uma vez que a Wicca se considera uma prática ou espiritualidade sacerdotal. Por tanto é considerado apenas um ofício: bruxo/bruxa que também é sacerdote/sacerdotisa. Os outros ofícios seguem apenas um patamar hierárquico baseado no número três (sacerdote - 1° grau -, sumo sacerdote - 2° grau - e alto sacerdote - 3° grau), existirão também os ofícios temporários de neófito (novo estudante) e postulante (aprendiz) que antecedem a iniciação.
6. Teísmos (compreensão sobre os deuses)
É totalmente questionável um/a dito/a bruxo tradicional cultuar divindades como “Grande Mãe” ou “Deus Cornífero” claramente wiccanas e se dizer tradicionalista bruxo. É importante iniciarmos esse texto reafirmando as diferenças entre Bruxaria Tradicional (BT) e Wicca Tradicional (Gardneriana, Alexandrina). A BT é fortemente politeísta e quando digo isso falo de uma visão não panteísta sobre o assunto, ou seja, na perspectiva cultural (regional e folclórica) politeísta cada divindade é singular em oposição ao pensamento sincrético e universalista de “todas as deusas como faces/arquétipos de uma só deus e todos os deuses como faces/arquétipos de um único deus” e isso piora quando Scott Cunninghan (autor wiccano) traz o conceito monoteísta de uma entidade anterior a essa deusa e esse deus que ao mesmo tempo que é criador é também a manifestação da fusão/união dessas duas entidades. Muitos bruxos tradicionalistas desconsideram o Wicca enquanto religião politeísta e/ou pagã em razão dessas perspectivas radicalmente afastadas das reais crenças politeístas, na verdade o Wicca se aproxima mais do cristianismo e seu monoteísmo como enfatiza Gilberto Lascariz (autor português wiccano), principalmente nas abordagens de Cunninghan. Penso que esse neopaganismo tem confundido a compreensão de imanência dos Deuses na natureza (cada qual em sua particularidade) com uma grande salada que tem por objetivo apenas facilitar a compreensão humana ao tentar “transformar” a compreensão de algo tão plural e diverso em algo reduzido e resumido como ocorre no resumo de todas as deusas e deuses em um único deus/deusa, mas isso tem raízes históricas muito recentes, essas compreensões do Wicca foram fortemente moldadas por um esoterismo que considerava ainda o Cristo e outras personagens da mitologia cristã em sua filosofia, o “paganismo” que se manifestou nesse meio é considerado como “meso-paganismo” por alguns teóricos da historiologia das religiões. Meu intuito aqui não é desvalidar o desvalorizar o Wicca enquanto caminho religioso, assim como o cristianismo, candomblé, umbanda e outros caminhos o Wicca merece ser respeitado, mas isso não faz do mesmo um caminho que possa realmente ser considerado pagão e politeísta, o que define isso é justamente o quanto dessa essência antiga está presente nas bases e alicerces enquanto pensamento, filosofia, crença e religião o que se vê no Wicca muito mais como uma distante tentativa falha ou extremamente poética e guiada pelo imaginário, por fim distante do concreto entendimento politeísta cultural. Conheço wiccanos, principalmente de fora do Brasil, que, primeiramente, não se consideram bruxos, e alguns também não se consideram pagãos e muitos compreendem que sua crença é duoteísta ou monoteísta e NÃO politeísta! Eu admiro wiccanos assim, pois conhecem bem a sua fé e a reconhecem enquanto algo concreto e sério afastado de todo imaginário de autores que só querem vender seus livros.
É importante entender que a BT é um ofício e em muitos casos esse ofício é afunilado, ou seja, oposto a toda essa amplitude neopagã que tenta abraçar todos os deuses (o típico “tentar abraçar o mundo com curtas pernas”). Logo um ofício possui deuses específicos, algo que gosto de chamar de “Panteão Oficial” (trata-se de um grupo de deuses com os quais tradicionalmente se trabalha em determinada região, cultura e tradição), algumas tradições possuem somente 16 deuses de culto, outras possuem (por exemplo) 30 oficiais e 30 de cultos secundários, mas sempre são deuses de uma mesma cultura e região. Você nunca verá na BT (e se ver saiba que não se trata de BT) deuses de culturas totalmente diferentes (exemplo: hindu e celta) sendo cultuados dentro de um espaço ou tradição, esse sincretismo é avesso a BT! É importante também entender que na BT não existe somente a perspectiva folclórica, cultural e regional (politeísta), em sua definição a BT geralmente é descrita em duas perspectivas: a cultural e a medieval. A primeira se manifestou mais na Antiguidade (também chamada de Era Pagã), contudo registros também foram feitos na Idade Média; a segunda é geralmente orientada por grimórios escritos na Idade Média tendo suas manifestações também a partir dela.
Sinto que este texto já está longo e isso graças a polêmica que esse assunto possui hoje no Brasil em um meio tão movido pelo neopaganismo, mas que está se moldando em conhecimento pouco-a-pouco e compreendendo a cada instante mais os velhos caminhos...
Nós, tradicionalistas bruxos inclusos na perspectiva folclórica, compreendemos que a Terra e a Natureza são latentes na magia e sagradas a antiga espiritualidade pagã, também defendemos a conservação e preservação ambiental, mas não sob lamúrias da Mãe Terra, pois a humanidade não foi criada aleatoriamente, os que nos criaram sabiam do que seríamos capazes e tudo o que iríamos fazer, claro que isso não justifica a destruição, mas coloca um ponto final no drama mítico moderno para muitos de nós. Cada tradição de BT terá sua forma de compreender o poder e a sacralidade da natureza, logo para cada via ela tem uma importância singular que só entendível quando há dedicação em conhecer uma delas.
7. "Faz o que desejar sem a ninguém prejudicar"???
"Faz o que quiseres e não faça mal a ninguém” é, segundo Gilberto Lascariz (autor de: Ritos e Mistérios Secretos do Wicca), uma máxima de Santo Agostinho de ética católica-cristã.
Na Bruxaria Moderna (Wicca) a máxima católica na verdade torna-se um dogma compreendendo bem e mal de forma aparentemente semelhante a compreensão cristã e entendendo a existência desses aspectos como componentes da natureza e da humanidade e seus atos. É acreditado por muitos wiccans que é possível viver sem prejudicar a nada (palavra absoluta) e a ninguém (palavra absoluta), e consequentemente - para eles - os que descumprirem esse dogma não são considerados wiccans legítimos.
Na Bruxaria Tradicional (BT) a máxima católica é totalmente desconsiderada, descreditada e desacreditada. Na maioria das Tradições Regionais o bem e o mal são vistos como aspectos muito relativos, não acredita-se que seja possível viver e sobreviver sem prejudicar a nada ou a ninguém, uma vitória sempre elege um prejudicado e um privilegiado seja numa luta física, guerra, discussão, vestibular, seleção de emprego, sorteio e etc. A vida campesina (dos antigos) era baseada na caça, o animal era prejudicado pela sobrevivência dos privilegiados que teriam sua fome saciada, assim como uma outra tribo poderia morrer de fome porque aquele era o único animal (o que ocorria em regiões onde a vida era difícil e as condições precárias, as vezes pioradas pelo rigoroso inverno europeu). A bondade e a maldade são relativas, as vezes alguém faz algo que pensa ser prejudicial a um inimigo, mas na verdade o que pensa ser ruim para o inimigo pode ser muito bom: ser demitido de um emprego que não aguentava mais e partir para uma nova experiência, terminar um relacionamento cansativo e encontrar alguém muito melhor, ficar doente e deixar de sair de casa em um dia no qual o ônibus que sempre pega capotou provocando várias mortes... o que as vezes parece azar pode ser sorte, depende muito da situação, e o bruxo teria que analisar profundamente a situação do enfeitiçado para causar-lhes mais mal que bem.
A questão ética nas Tradições de BT varia de acordo com os costumes ancestrais de cada região, há Tradições, inclusive, que não possui esse tipo de aspecto limitador/ponderador das práticas. Na Tradição Islandesa, por exemplo, tudo gira em torno da Justiça que é uma das nove virtudes levadas em questão.
- Roberto de Souza
Magister